Torneira pingando: quanto isso come da conta e como parar sem piorar o cano
A torneira da pia fecha e continua um pinga-pinga. À noite o som irrita; de dia a conta de água sobe sem banho extra. Antes de “apertar até quebrar” ou de chamar encanador para um courinho, dá para entender o que está pingando — e o que a Lei do Inquilinato separa entre uso, defeito antigo e reparo urgente. O volume de desperdício citado abaixo vem de órgão público de saneamento.
Resposta objetiva: o Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre (Dmae) informa, no folheto do Dmae sobre desperdício, que uma torneira pingando desperdiça 46 litros de água por dia. Isso explica o “até 46 litros/dia” que muita campanha usa: é ordem de grandeza de gotejamento, não a leitura da sua conta. Trocar o vedante (o “courinho”) costuma resolver torneira que pinga só na bica, com o fechamento já no fim de curso. Vazamento no cano da parede, no registro do cavalete ou no encanamento depois do hidrômetro é outro problema — e já foi tema de teste de hidrômetro neste blog. Aperto excessivo racha o assento e piora o cano. Imóvel alugado: avise o locador por escrito; água da unidade é encargo do locatário (art. 23, VIII, da Lei nº 8.245/1991), mas vício anterior é do locador (art. 22, IV).
Quanto o pinga-pinga desperdiça
O Dmae, autarquia de saneamento de Porto Alegre, coloca a torneira pingando no topo da sua escala de desperdício: 46 litros por dia. Em forma de filete, o mesmo folheto fala em 180 a 750 litros por dia. A CASAN, companhia de Santa Catarina, usa a mesma ordem de grandeza (“até 46 litros”) em orientação publicada no site. Nenhuma das duas transforma isso em reais, porque a tarifa depende da concessionária local e da sua faixa de consumo. Olhe o histórico de metros cúbicos na fatura: salto sem mudança de hábito pede inspeção, não briga só com o hidrômetro da rua.
Filete visível (fio contínuo, não gota) desperdiça mais do que gotejamento. Os números de “2 mm” e “4 mm” que circulam em campanhas antigas não aparecem nas fontes usadas aqui; o Dmae fala apenas em “filete”, com a faixa de 180 a 750 litros por dia. Se a água escorre em fio, trate como vazamento aberto e feche o registro daquele ponto até o reparo.
Por que pinga: vedante, assento, haste — sem virar curso de hidráulica
Torneira clássica de 1/4 de volta ou de várias voltas veda com um disco (courinho, vedante de borracha ou cerâmico, conforme o modelo). Com o tempo o disco resseca, racha ou fica marcado pelo assento de metal. Aí a água vence o fechamento e pinga na bica mesmo com a alavanca “fechada”. Torneira monocomando usa cartucho; o sintoma parece igual, a peça não é courinho.
O que o morador pode fazer com calma, registro fechado e sem forçar:
- Feche o registro de alimentação daquela torneira (embaixo da pia ou o geral do banheiro). Abra a torneira para aliviar pressão.
- Se for modelo de volante com vedante aparente, desmonte só o que o fabricante do metal permite sem ferramenta de impacto. Troque o vedante pelo tamanho certo — a loja mede o antigo. Não existe “courinho universal”.
- Não dê o último aperto “com raiva”. Assento riscado ou haste torta não se resolvem esmagando borracha nova: a peça nova fura mais rápido e o cano de alimentação sofre torque.
- Se a água vaza pelo cano da parede, pela porca da haste (em baixo do volante) ou pelo misturador da parede, pare. Isso já não é “só o bico”.
- Monocomando, torneira de parede embutida, registro gaveta emperrado e qualquer peça que exija solda ou corte de tubo: encanador.
Cortar tubo, trocar coluna ou “adaptar” rosca com fita já é serviço de encanador. Fita veda rosca em junta que já se conhece; não é tampão de trinca.
Aluguel: quem paga o pinga-pinga
O art. 23, VIII, da Lei 8.245 obriga o locatário a pagar o consumo de água e esgoto da unidade. Gotejamento que você deixou correr meses pesa na sua fatura. O art. 23, V, manda reparar de imediato dano que você, familiar, visitante ou preposto provocou. O art. 23, IV, manda levar ao locador, imediatamente, dano ou defeito cuja reparação a ele incumba.
Do outro lado, o art. 22, I, obriga o locador a entregar o imóvel em estado de servir ao uso; o inciso IV faz o locador responder por vícios anteriores à locação. Torneira que já pingava na vistoria de entrada (art. 22, V) não vira “descuido do inquilino” só porque a conta chegou. O art. 26 trata de reparos urgentes a cargo do locador: o locatário deve consentir; se durarem mais de dez dias, cabe abatimento proporcional do aluguel no que exceder; se mais de trinta, pode resilir. Pinga-pinga isolado na bica raramente é o “reparo urgente de dez dias” do art. 26 — mas vazamento que ameaça laje, vizinho ou coluna pode ser. Avise por escrito, fotografe e não quebre piso por conta própria.
Não misture este texto com o teste de hidrômetro (medidor andando com tudo fechado). Aqui o foco é a peça da pia ou do lavatório. Se o ponteiro anda com a torneira visivelmente seca, volte ao teste da concessionária e ao encanador.
Checklist
- É gota na bica com o volante no fim de curso, ou é filete / vazamento na parede?
- Registro daquele ponto está fechado antes de qualquer desmonte.
- Vedante novo do tamanho do antigo; sem aperto destrutivo.
- Fatura: m³ do mês versus o hábito; a conversão para reais depende da tarifa da sua concessionária.
- Aluguel: vistoria de entrada, aviso escrito ao locador, fotos.
Erros comuns
- Apertar o volante cada vez mais forte. O pinga para um dia e o assento cede no outro.
- Usar vedante de tamanho errado ou recortar borracha de câmara de ar “que serve”.
- Ignorar vazamento na parede porque “é pouco”. Umidade em gesso e no apartamento de baixo não é pinga-pinga de bica.
- Descontar caução de torneira gasta por uso normal sem olhar o art. 23, III (deterioração de uso normal) e a vistoria de entrada.
- Tratar 46 litros/dia como se fossem a sua leitura de hidrômetro. É estimativa de campanha pública sobre gotejamento, não o seu m³.
Quando procurar um profissional
Encanador, se o pinga continua depois do vedante, se vaza na parede, se a torneira é monocomando/embutida ou se há umidade no vizinho. Locador e, se preciso, advogado, se o defeito era anterior e o reparo urgente do art. 26 não anda. Concessionária, se o hidrômetro anda com tudo fechado (outro teste, outro artigo).
Conteúdo relacionado
Se quiser aprofundar, estes textos tratam de pontos vizinhos:
- O teste do hidrômetro para achar vazamento
- Sifão da pia vazando: checagens antes de quebrar
- Caixa acoplada vazando: checagens antes de trocar
Perguntas frequentes
Quanto custa o courinho?
O preço muda por modelo e cidade. Leve o vedante velho à loja ou peça para o encanador especificar a peça.
46 litros por dia são oficiais?
O Dmae (Porto Alegre) publica 46 litros por dia para torneira pingando, e a CASAN usa a mesma referência. É uma estimativa oficial de campanha, não a sua fatura.
Inquilino é obrigado a trocar a torneira?
Depende da causa. Consumo de água é do locatário (art. 23, VIII). Dano que ele provocou, ele repara (art. 23, V). Vício anterior, locador (art. 22, IV). Sem vistoria, a prova fica pior para os dois lados.
Posso só apertar o registro da pia e deixar assim?
Fecha o pinga, mas você perde aquele ponto de água. Melhor vedante ou profissional do que viver com o registro no meio.
É a mesma coisa que vazamento no hidrômetro?
Não. Hidrômetro que anda com tudo fechado aponta rede interna (cavalete, caixa, vaso). Torneira que pinga na bica é a peça. Podem coexistir.
Fontes consultadas
- Dmae / Prefeitura de Porto Alegre, folheto sobre desperdício de água (torneira pingando: 46 litros/dia; filete: 180 a 750 litros/dia) — prefeitura.poa.br
- CASAN, “CASAN reforça boas práticas para uso da água” (torneira gotejando: até 46 litros/dia) — casan.com.br
- Lei nº 8.245/1991, arts. 22, 23 e 26 — https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8245compilado.htm
Texto informativo, atualizado em 28 de setembro de 2026. Não é orçamento de encanador, não estima R$ na conta e não substitui o reparo no seu ponto de água.
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